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Terei sempre muita coisa a dizer e sonho ainda introduzir inovações que tenho na cabeça e não consigo realizar.
Oswaldo Goeldi
Incompreendido por tantos, adorado por muitos e confidente de poucos, Oswaldo Goeldi nasceu e morreu no Rio de Janeiro, muito embora sua lembrança constante tenha sido o convívio familiar em Belém do Pará, onde viveu sua infância e absorveu a natureza ao redor, o que mais tarde retrataria em suas obras.
Filho de Emilio Goeldi, cientista com reconhecimento mundial, Oswaldo e seus seis irmãos eram cúmplices de brincadeiras e travessuras nos jardins do Museu Paraense dirigido por seu pai.
Porém, anos mais tarde, cansado de convenções e da falsa nobreza cativada pelo nome que carregava, Goeldi somente partilhava poucas cartas e confidências com seu irmão Edgar.
Oswaldo Goeldi era um homem simples. Embora de vasta cultura herdada dos pais e freqüentador das melhores escolas do Exterior, gostava de se aproximar daqueles pobres excluídos da sociedade: bêbados, vagabundos, cães, velhos, prostitutas e pescadores – um vasto material para sua arte.
Podia-se sentir o apego à alma de seus personagens, muitos deles sem títulos e com expressões disformes. Goeldi se sentia parte deles, pois sua juventude foi marcada por falsos amigos, traições, rejeições familiares e mágoas que jamais esqueceu.
Com a sensibilidade aflorada de uma alma de artista, Oswaldo Goeldi não suportou a guerra; os aspectos melancólicos daquele posto na fronteira entre a Suíça e a Áustria faziam com que sua mente viajasse até sua casa e sua meninice.
Quando encontrou o seu meio de expressão, Goeldi trabalhou com incansável afinco participando de exposições e bienais.
Goeldi amava o que fazia mais do que tudo, não se casou e não teve filhos, mas cultivava suas obras como suas crias.
Amava os animais, gostava de ficar por horas sentado no cais, dormia na praia muitas vezes, mas também era amigo de muitos intelectuais como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Aníbal Machado, Raquel de Queiroz e Ferreira Gullar.
Tornou-se, segundo ele, um boêmio, mas jamais abandonava seus blocos de anotações, cujas páginas ia enchendo de croquis rápidos, de traços firmes, nervosos e incisivos, com os quais surpreendia e fixava aspectos de ruas, cenas de mercado, bichos e homens de guarda-chuvas.
Trabalhando como ilustrador e professor, suas gravuras e desenhos passaram a ter valor contextual no meio artístico. A descoberta da gravura não implicou, para o artista, o abandono do desenho, mas, com exercício dessa técnica, Goeldi caminhou para um estilo próprio.
As palavras de elogio ao seu trabalho pelo artista gráfico Alfred Kubin o fizeram esquecer um pouco a melancolia e entregar-se inteiramente ao trabalho na xilogravura. Dali por diante, ele dominaria a técnica cada vez mais e sua obra seria sua dócil confidente.
Um pequeno quarto, com uma luz forte incidindo sobre a mesa de trabalho e silhuetando por entre a folhagem seu perfil nervoso, varando as noites, só, empolgado pelo afã febril de desenvolver e criar, a sulcos de goivas ou de formões, na superfície lisa da madeira: assim, operava-se a perfeita comunhão entre Goeldi e a xilogravura. Para Oswaldo aquele cantinho era o refúgio ideal, pois ninguém o perturbava e nem viria distraí-lo da solitude criadora.
Viveu no bairro do Leblon perto de 35 anos e a morte não o surpreendeu, faleceu tranqüilo, só, com a mão em seu peito, como num sono sem fim.
Anos mais tarde, deparando-me com meu espírito aventureiro e a veia artística correndo em minha alma, começo este trabalho de resgate do homem Goeldi. Procuro buscar na memória, como fiz com meu avô, escutar suas histórias.
Minha mente viaja como se eu estivesse fazendo isso a cada momento e consegue chegar cada vez mais perto de seu carisma, de sua obra, compreendendo seus instintos.
Agora, pela primeira vez, estamos realmente próximos. Ele – magistral, com seu incansável trabalho reunido nesta exposição, a maior já exposta ao público – e eu, já não mais mera espectadora, e sobrinha do artista, mas mentora desse sonho, vinculado à arte e ao reconhecimento de suas obras.
Oswaldo Goeldi, a quem represento em vida, viverá para sempre em sua obra, mas, acima de tudo, perpetuará sua memória nos nossos corações, pois somos parte daquilo que ele mais amava, “sua família”.
A Associação Artística Cultural Oswaldo Goeldi, o Instituto Oswaldo Goeldi e o Projeto Goeldi são apenas conseqüências dos sonhos de Goeldi.
Lani Goeldi
Curadora
GOELDI NA BM&F: ARTE EM BRANCO E PRETO
A vida não responde imediatamente as nossas complicadas expectativas. Por conta disso, certos eleitos, por ela mesma escolhidos de forma singular, seguem seus caminhos oblíquos e solitários, em uma continuidade criativa pulsante entre o torturante gemido solitário dentro dos abismos sombrios de nossa malfadada alma e a morna euforia escarnecida das palavras, não-ditas, mal ditas, em dúvida de si mesmo.
Eu sou carioca de nascimento e, desde a infância, me sentia opaco, pela contemplação cotidiana das belezas naturais da cidade do Rio de Janeiro, a qualquer canto um novo olhar, de uma irretocável harmonia atlântica entre o céu, a mata e o mar.
Aos treze anos, mudei-me com minha família, para a Amazônia. E por conta disso, chego bem próximo da compreensão exata do que tem ocorrido, com todo aquele nascido no Rio de Janeiro, e que seja remarcado a fogo pelo exuberante e incandescente sol equatorial, na grande mãe incontestável, senhora de todas as cores, sons e sabores florestais tropicais.
Essa minha experiência pessoal deve ter sido bem parecida com a do grande mestre Goeldi que, quando na infância, se deslumbrou com as diversidades pungentes da Amazônia, pelas portas do Estado do Pará.
Oswaldo Goeldi é nosso verdadeiro expressionista e nosso verdadeiro modernista. O único artista modernista coerente em sua personalíssima produção autônoma e solitária, bem longe das regras poéticas modernistas centradas no conteúdo, e sem a menor preocupação com as tendências oficiais da arte brasileira, do modismo e do mercado de arte, como um todo.
Acredito que por conta desse comportamento, tenha sido mais fácil o primeiro reconhecimento de genialidade de sua valorosa obra, por diversos artistas literários de gêneros diversos.
Goeldi com sua arte estava muito além de seu tempo. E por conta de sua incontestável personalidade autônoma criativa, não foi bem recebido pela crítica especializada na arte, como também pelos outros artistas contemporâneos.
Mas a continuidade se faz necessária, mesmo quando temos externamente tão poucos estímulos incentivadores para isso. Parece que a estrada da personalidade forte reserva um caminho sombrio e solitário, para seus filhos mais queridos.
Sendo assim, a arte de Goeldi impressiona, desde o início, o menos letrado espectador, pela profundidade das questões sociais modernas que apresenta. Os elementos vivos de seus desenhos e gravuras estacam-se e vagueiam vagarosamente pelas superfícies negras e brancas, sem terem para onde ir. E os elementos mortos, imóveis e paisagísticos, assumem um papel metafísico, de lugar nenhum, becos, esquinas, vielas comuns, que podem ser de qualquer grande metrópole do mundo. Os elementos vivos e os elementos mortos trocam de papéis. A realidade sombria e cotidianamente opressora chega a assumir um papel inimaginavelmente mágico e importante. Da mesma forma que os elementos marginais de suas figuras. São eles bêbados, ambulantes, trabalhadores braçais, prostitutas, pescadores artesanais, que pouco a pouco assumem um papel definitivamente emblemático dentro de todos os processos criativos na obra do artista.
Acredita-se supostamente que o preto seja a inclusão de todas as cores, e que o branco seja a ausência e a exclusão de cada uma delas. Mas na arte de Goeldi, o preto e o branco assumem uma nova realidade em papéis distintos. O negro passa a ser o pano de fundo das palavras não-ditas, dos elementos mudos, dos muros descascados, da calçada escura, do canto imundo, que nos ensurdecem e o alvo passa ser o sopro da própria vida, a verdadeira luz, que anima todas as coisas que se movem, que nos entorpece no sentido inverso das falsidades.
Goeldi nos lembra em muitos momentos, em um convite constante, por sua obra, que as falsas modéstias, as vaidades, as arrogâncias burras e teimosas, o sermos importantes e privilegiados pouco nos valem verdadeiramente.
Pois a morte, futuro certo de cada um, iguala a todos a qualquer modo e não há quem, nascido algum dia, que dela escape.
Mas para Goeldi, a morte não é o fim somente, aparece como alicerce vivo e presente em todos os passos de nossas íntimas continuidades e conflitos diários.
Goeldi passou dos 6 aos 24 anos na Suíça. Viu de perto os horrores da guerra, das perdas, da fome, da solidão, elementos que marcaram definitivamente e profundamente a alma do artista. Nessa mesma época, na Europa, entra em contato com uma produção artística que o marcaria para sempre, a do artista austríaco Alfred Kubin (1877–1959), uma importância ímpar que, até hoje, nenhum trabalho crítico definiu a exata dimensão. É como se um fosse a contra face do outro, no encontro de um mesmo caminho.
Por esses encontros e achados, um na obra do outro, Goeldi e Kubin corresponderam-se constantemente de 1926 a 1951.
Acredito que existem certos e determinantes fatos, pessoas e personagens, que, vez por outra, redirecionam e norteiam ao mesmo tempo nossas caminhadas pessoais. Tanto como foi o encontro com Alfred Kubim, foi também com Hermann Kümmerly. Tiveram, cada um deles, uma importância norteadora dentro da emblemática carreira artística de Goeldi.
A vida se repete, em formas semelhantes, e em momentos desiguais, e reserva-nos surpresas dignificantes ao longo de nosso caminho. Assim também foi comigo neste encontro, quase que por acaso, com Lani Goeldi, sobrinha do artista.
A agulha imantada do encontro marcado, mais uma vez, cumpre seu papel enigmático.
Mas voltando ao grande mestre Goeldi.
No período que esteve na Europa, Goeldi limitou-se aos desenhos e à litogravura. Só em 1923, já no Brasil, é que passa a se interessar pela xilogravura.
A partir desse mágico momento de complexidade mútua, criador e criatura constroem um universo metafísico próprio da criação.
Evoco o termo latino creatore, sem a menor preocupação de blasfêmia literária contra a magna criação. Pois só para Oswaldo Goeldi, “entre os homens nascidos de mulher”, posso facultar esta comparação divina. Daquele que cria divinamente a partir do nada, e não tão-somente transforma. Ao contrário de muitos, que não fizeram nada mais do que uma releitura do que já existia, Goeldi veio com um universo totalmente novo, magistralmente criado, e perpetuado ao longo de sua vasta obra.
A gênesis na verdadeira arte se repete: como o homem veio do barro, o mundo mágico de Goeldi veio a partir do comum pedaço de madeira.
E por meio da mais popular das técnicas de expressão artística, a xilogravura, tão presente nos livretos da literatura de cordel, expostos entre os anônimos ambulantes, nas incontáveis feiras livres de todos os nossos “brasis”, vem a expressão máxima de sua arte.
Perpetuando-se mais uma vez que o feito magistral, não necessita do mais precioso para ser executado.
O grande mestre faz a xilografia assumir um caráter essencialmente expressionista, moderno e erudito.
Goeldi, em goivagens precisas na confecção da matriz, inicia a ressurreição de luz e força, arranca a cada movimento, do tosco pedaço de madeira, a própria vida.
Em uma engenhosidade complicadíssima de colorir com várias cores a gravura no suporte orgânico, revela ao espectador um mundo mágico, totalmente vivo, com uma matriz personalíssima de criador.
Consegue Goeldi, no desenho a lápis, no carvão e no nanquim, a mesma expressividade encontrada nas gravuras magistrais. Como um verdadeiro maestro, não privilegia qualquer instrumento: rege qualquer um deles, com o único objetivo de chegar bem próximo da perfeição. Assim, nas mais diferentes técnicas de expressão artística, consegue redimensionar a importância do branco e do preto, do claro e do escuro, da vida e da morte, do comum e do eleito, convidar o espectador solitário, um a um, olho a olho, perante qualquer uma de suas obras, encontrar parte das respostas contidas em todos sombrios abismos pessoais de cada um, e por conta deste feito, sempre ser celebrado.
E as gerações que hão de vir verão, verdadeiramente, Oswaldo Goeldi como o maior artista moderno brasileiro.
Ricardo Barradas
Curador
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