ENGLISHMapa do SiteContate-nosCongresso 2003BM&F
ProgramaçãoPalestrantesPúblico Alvo ExposiçãoCampos do JordãoGaleriaImprensa
 
Sala de Imprensa
Recomendar esta páginaImprimir

 

Discurso do Presidente do Conselho de Administração da BM&F,
Manoel Felix Cintra Neto.

Senhoras, senhores,

É com grande prazer que em meu nome, em nome dos Conselhos de Administração e Consultivo e dos profissionais da BM&F dou as boas-vindas ao II Congresso Internacional de Derivativos e Mercados Financeiros de Campos do Jordão. Através do Prefeito João Paulo Ismael quero agradecer a acolhida que recebemos nesta cidade e a todos os que contribuíram para o sucesso deste evento. Agradeço, também, às empresas e instituições que se somaram a nós como patrocinadores, em especial o Bradesco.

Devíamos ter hoje aqui o Governador Geraldo Alckmin e o Presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. O Governador mudou sua agenda para comparecer ontem à BM&F, participando do lançamento do Centro de Inteligência do Café. O Presidente do Banco Central está no exterior. Isso me dá um pouco mais de tempo para abordar os objetivos deste congresso e a posição da BM&F.

Senhoras, senhores,

A iniciativa de aqui sediar os Congressos Internacionais de Derivativos contribui para consolidar o nome de Campos do Jordão num roteiro altamente seletivo. Trouxemos para a América Latina, para o Brasil e para São Paulo em particular, uma referência que até 2003 limitava-se a quatro destinos principais, todos eles no Hemisfério Norte: Boca Raton, na Flórida - sede do Congresso da Futures Industry Association -, Chicago, Londres e Burgenstock, sedes da feira e dos seminários de opções e futuros das bolsas norte-americanas e européias.

Todos vocês que interromperam suas agendas de trabalho numa hora tão turbulenta da vida política brasileira para vir a Campos do Jordão serão amplamente recompensados. A primeira recompensa é natural e óbvia: é o próprio convívio com os demais participantes. Li cuidadosamente os nomes dos inscritos. Além de muitos amigos, vi também que as empresas e instituições representadas espelham o que há de mais importante e responsável no Brasil.

Nunca foi tão importante reunir cabeças pensantes para uma reflexão. O fim da semana passada foi cheio de inquietação e dúvidas sobre como reagiria o mercado ao lamaçal que jorra das CPIs. O pregão da BM&F apareceu em toda a mídia falada, escrita e eletrônica como retrato da perplexidade do mercado. O mercado está aqui reunido para um exercício de reflexão e discordo dos que acham que o mercado não tem nada a ver com a política.

Instituições privadas que assumem o elevado ônus da auto-regulação do mercado – como é o caso da BM&F, podem e devem assumir responsabilidades. Se somos a cara do mercado, vamos mostrar que esta é a cara de um Brasil que trabalha, que produz e tem uma base sólida. As instituições financeiras são fortes. Esta é a verdadeira blindagem do Brasil e uma boa blindagem não pode ser uma blindagem cega.

Como não somos cegos, temos de reconhecer que há uma questão ética neste país, neste momento. A ética é a questão que está no centro da crise. Essa questão não será resolvida com covardia, omissão ou silêncio daqueles que recebem mandatos como dirigentes do mercado. Em recente homenagem que lhe foi prestada pela Ordem dos Economistas, o professor José Alexandre Scheinkman abordou esse ponto com grande propriedade, ao mencionar as proporções gigantescas que o mercado informal tomou no Brasil. Muitas pessoas aceitam com naturalidade que um médico, um dentista, um eletricista, um advogado ou um encanador pergunte como quer pagar o serviço: com nota ou sem nota.

Ao se defrontar com uma cunha tributária absurda, muitas empresas pequenas, médias e até grandes acham natural trabalhar sem nota fiscal. Pequenos exemplos de permissividade como esses perpassam todas as gavetas das relações públicas e privadas. Uma pequena mentira leva a outra, uma pequena infração leva a outra e outra mais e termina contaminando toda a cadeia dos negócios públicos e privados. Quem é o responsável senão todos nós?

O mercado está reunido aqui. Esta é a cara do mercado. É nesse contexto que além de mostrar a cara devemos mostrar o senso da responsabilidade que queremos assumir. O mercado é parte do gigantesco problema político e moral que este país atravessa. Convido, portanto, todos vocês para um exercício sobre o grau de responsabilidade corporativa no desenho do perfil de um novo Brasil a longo prazo.

A BM&F não se considera perfeita. Nada é perfeito. Mas temos elevado ao mais alto grau a questão da ética e da transparência em nossos mercados. Foi graças à firmeza do Comitê de Ética da BM&F que nos antecipamos com pulso firme a problemas que, de outra forma, teriam nos arrastado para a vala comum de certas investigações ora em curso. Nosso comitê de ética continuará atuando de forma implacável e nossos mercados continuarão pautados pela transparência.

Se a mídia quer fotografar nossos pregões como a cara do mercado, quero declarar que essa cara não é uma cara de perplexidade nem de estresse. É a cara da transparência, da responsabilidade. A mídia vem prestando um grande serviço ao Brasil dando total transparência ao que acontece no meio político. A combinação de transparência, responsabilidade e bom jornalismo são pilares fundamentais para a liberdade, a democracia e o crescimento sustentável.

Senhoras, senhores,

Segundo um velho ditado que ouvi do Diretor Geral da BM&F, Edemir Pinto, quem sobe ao topo da montanha tem de se preparar para o vento que sopra de todos os lados. Vocês, que hoje aqui se encontram, chegaram ao topo da montanha porque são vencedores em suas empresas, instituições, universidades, think-tanks nacionais e internacionais. A blindagem da economia brasileira depende da nossa capacidade para encontrar um norte de ética corporativa, de trabalho, de participação social e política em prol do desenvolvimento humano. Se conseguirmos sair daqui com mais clareza sobre esses pontos, teremos nossa primeira grande recompensa.

Antes de abordar a segunda recompensa a que me referi quero lembrar o que fizemos no Congresso de 2003 e seus resultados. Quando desenhamos o I Congresso de Derivativos o cenário era bem diferente de hoje. Em 2003 o Brasil ainda engatinhava na implantação do novo Sistema de Pagamentos, mas a BM&F já havia consolidado sua posição entre as dez maiores bolsas de derivativos do mundo e entre as cinco maiores bolsas de futuros. Trabalhando duro conseguimos consolidar o tripé das novas clearings de câmbio e ativos ao lado da clearing de derivativos, com a blindagem de um Settlement Bank, além de posicionar a Bolsa como agente calculador para o mercado.

O I Congresso mostrou nossa capacidade para criar uma referência para os mercados derivativos e financeiros nas economias emergentes. Os ilustres palestrantes que vieram de outros países constataram que chegamos ao estado da arte no gerenciamento de riscos. Nossos mecanismos de chamada de margem e gerenciamento de riscos receberam um alto reconhecimento por parte do FMI e das mesas operadoras no exterior. A excelência na administração de riscos contribui para reduzir o risco-Brasil e atrair capitais. Não temos porque não afirmar em alto e bom som que as estruturas de gerenciamento de risco criadas pela BM&F são hoje parte dos alicerces deste país e é por isso que ele resiste aos vendavais políticos.

Em breve retrospectiva, quero lembrar o que ouvimos no I Congresso. Tivemos, na abertura, uma extraordinária palestra sobre a história contemporânea, feita pelo ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, pouco tempo depois de ter deixado o Palácio do Planalto. Tivemos contribuições importantes como as de Stanley Fischer, de Myron Scholes – prêmio Nobel de Economia – de Albert Fishlow, Carol Alexander, Affonso Celso Pastore, José Alexandre Scheinkman, Eduardo Gianetti, Miguel Angel Broda, Andréa Corcoran, Márcio Garcia, Simão Silber e outros.

Um dos principais palestrantes, Stanley Fischer, que além de professor do MIT foi dirigente do FMI e participou dos debates do G-7 sobre a flexibilização do câmbio países emergentes, contribuiu para alargar mais ainda nossa visão do mundo e da economia contemporânea. Hoje é mais do que claro que a empresa que quiser crescer tem de pensar no mundo como pensamos em nossa casa. A Rodada de Doha interessa ao fabricante de sapatos de Birigui ou à indústria têxtil de Americana e seus financiadores, mesmo que eles não saibam onde fica Doha ou a sede da Organização Mundial do Comércio, a OMC. A globalização trouxe o mundo para a esquina da nossa rua e até mesmo para dentro das nossas casas.

Esse foi o cenário do I Congresso. Desde então presenciamos uma explosão no comércio exterior, o interesse crescente dos hedge funds pelo Brasil, o aumento da procura dos credit default swaps e derivativos de credito em geral. É, também, cada vez maior o interesse das empresas não financeiras pelos mecanismos de hedge. Todos estes são temas que iremos abordar no II Congresso.

Dados publicados recentemente pelo BIS simplificam o que estou falando. Em 2002 os contratos futuros abertos em bolsas totalizavam 28 milhões. Em março de 2005 existiam 73 milhões de contratos nas prateleiras dos mercados futuros no mundo. Os mercados são voláteis, a volatilidade está em toda parte. A cada pronunciamento de Alan Greenspan o mundo prende a respiração procurando saber o que acontecerá com os juros e o dólar norte-americano. A desvalorização do dólar diante do Euro, a supervalorização da moeda chinesa, as proteções tarifárias e não tarifárias no comércio exterior, todos esses são temas que estão batendo às nossas portas.

A BM&F é a ponte de ligação do Brasil com esse mundo financeiro globalizado e competitivo, que cada vez mais procura novos instrumentos de proteção patrimonial. Isso me leva, mais diretamente, aos temas que serão abordados no II Congresso nesta quinta e sexta-feiras. O ciclo de palestras será iniciado pelo Professor Paul Krugman, um dos mais importantes analistas econômicos da atualidade. Ele abordará as perspectivas para a economia mundial e certamente nos ajudará a repensar o papel que o Brasil irá desempenhar no fluxo das transações internacionais.

Depois de um painel tão importante, que certamente abrirá nossos horizontes para a compreensão das tendências da economia global, nada mais instigante do que o tema que será abordado pelo Prof. Paul Wilmott: como fazer um hedge corretamente.

Senhoras, senhores,

Os mercados são afetados pelo desempenho da economia como um todo. O sucesso da política econômica do atual governo tem se apoiado em alguns princípios sólidos como a austeridade fiscal, o comprometimento com o sistema de metas e o câmbio flutuante. No entanto, as incertezas que brotam no ambiente político insistem em empurrar para longe o horizonte que as empresas e instituições privadas precisam enxergar. Como disse antes, somos todos responsáveis. Não podemos nem devemos cair nas armadilhas que podem nos empurrar para mais uma década perdida.

Chegamos a um ponto em que todos nós queremos e teremos de responder a perguntas inquietadoras:

Por que não conseguimos crescer a taxas mais elevadas?

Por que temos dificuldade para ampliar a oferta de crédito a custo mais baixo?

Por que estamos a mais de uma década travados no meio do caminho com a questão dos juros, sem conseguir que a economia brasileira se aproxime dos parâmetros médios das economias mais desenvolvidas e industrializadas?

Por que não conseguimos acelerar ainda mais setores que já mostraram sua extraordinária capacidade e competência, como o agronegócio?

O mercado tem todo o direito de protestar contra a incerteza que brota do lamaçal ético. Essa incerteza turva a visão das soluções de longo prazo que todos desejamos e que não podem existir apenas nas redomas corporativas.

Este II Congresso não pode resolver todos os problemas que acabamos de mencionar, mas pode oferecer cenários alternativos para a travessia deste momento de crise.

Algumas dentre as questões que mencionei vão permear a mesa de um painel que contará com a participação de três renomados economistas brasileiros: Affonso Celso Pastore, Paulo Leme e Sérgio Werlang. O ex-Ministro Pratini de Moraes contribuirá para a síntese dos resultados.

A soma de experiência dos presentes com certeza irá nos municiar para a travessia do período que estamos vivendo. Cabe no mesmo contexto a discussão da proposta de déficit nominal zero do Deputado Antônio Delfim Netto, a quem teremos a honra de ouvir na sexta-feira durante o almoço.

De volta da economia aos mercados, vamos abordar a importância do balcão. É no mercado de balcão que muitas empresas, financeiras ou não, buscam o ‘hedge’, tendo em vista sua capacidade para oferecer produtos de acordo com o figurino do cliente. A incerteza legal pode comprometer a segurança do negócio. Insere-se aí o novo mercado de balcão, que seguindo o padrão dos contratos preconizados pela ISDA, permitirá maior certeza jurídica para os casos de inadimplência.

Nesse arcabouço contratual, a possibilidade do ‘netting’ e a figura do agente calculador assumida pela BM&F com certeza estimularão o desenvolvimento do mercado. Para falar sobre este assunto, tanto do ponto de vista institucional e de produtos, quanto legal, teremos a presença dos senhores Klaus Said, João Cesar Tourinho e do jovem e dinâmico presidente da CVM, Marcelo Trindade.

Investimentos, hedge, mercados globais. A arquitetura do novo sistema internacional será focalizada na palestra do ex-economista-chefe do FMI e professor Kenneth Rogoff. Com o advento do Acordo da Basiléia e a adoção de seus princípios, a mensuração do risco tornou-se questão essencial para a atividade financeira. O VaR – ou Value At Risk – habita hoje o dia-a-dia da maioria das pessoas aqui presentes.

A metodologia inicialmente dirigida ao cálculo do risco de mercado tem avançado no sentido de englobar outros conceitos de risco, como o de crédito e o operacional. A integração dessas categorias em uma medida única será o objeto da palestra do Prof. Jorion, cujo livro sobre risco é referência indispensável em qualquer curso sobre o tema. As principais inovações e efeitos dos acordos da Basiléia sobre os mercados e os aspectos legais envolvidos serão expostos pelos senhores Jackson Gomes, Antônio Marcos Duarte e esse bastião da experiência normativa e diretor do Banco Central, Sérgio Darcy.

Cientes da importância da adequada mensuração de risco, criamos recentemente, em cooperação com a USP, o MBA de Pricing e Risco, que enfatiza a modelagem matemática em Finanças e suas aplicações para o apreçamento e para gerenciamento de risco. A inserção da matemática e estatística na área é tão grande que hoje em dia ninguém mais colocaria em dúvida a importância dos métodos quantitativos no desenvolvimento do mercado. A palestra do Prof. Emanuel Derman, físico que se tornou um dos maiores pensadores na Teoria das Finanças será esclarecedora sobre esse ponto. Ou ao menos nos fará repensar alguns dogmas que carregamos a respeito do assunto.

A discussão de como e quando os modelos devem ser usados em Finanças é essencial, especialmente quando encaminhada por um autor com a autoridade de Emanuel Derman. Vale lembrar que Derman criou, em conjunto com William Toy e Fischer Black – o mesmo do modelo de Black-Scholes - o modelo para apreçamento de opções de taxas de juros conhecido como BDT.

John Hull é certamente a maior referência em mercados derivativos. É também um dos grandes responsáveis pela popularização dos derivativos com seus dois livros, bibliografia obrigatória em quase todas as universidades ao redor do mundo. A 4ª edição do livro Fundamentos dos Mercados Futuros e de Opções está sendo lançada pela BM&F e durante o Congresso, na quinta feira, haverá uma sessão de autógrafos do autor.

Em sua apresentação, o Prof. Hull irá nos mostrar a tendência do mercado de derivativos: os instrumentos ligados ao crédito, nomeadamente os credit default swaps e collaterized debt obligations. Para concluir, quero reiterar que A BM&F sente-se honrada com sua presença.

Ao retornar às suas mesas de trabalho, com certeza todos terão aumentado o estoque de munições para enfrentar os ventos que sopram de todos os lados, garantindo ao Brasil uma base ainda mais sólida para o gerenciamento de riscos.

Nossas clearings são pilares. Somos alicerces nesse processo que queremos continuar a fortalecer e aperfeiçoar. Como controladores da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro estamos levando para o Rio os mercados de energia e carbono. Vamos realizar na segunda-feira próxima o primeiro pregão dos contratos de energia elétrica. Em meados de setembro lançaremos o Mercado Brasileiro de Redução de Emissões, em parceria com o Governo Federal, através do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.

Ainda em setembro estaremos lançando o mercado de câmbio pronto, no grito do operador e em roda de viva-voz. Assim como contribuímos no passado para criar um grande e transparente mercado de ouro, em tempo real e com grande transparência estaremos contribuindo para apagar da memória dos brasileiros os tempos do mercado negro do dólar, do black, dos blequistas e do dólar na cueca.

Todos esses são novos mercados e são, também, uma prova da responsabilidade corporativa e social que praticamos em nome da ética e do bem comum. A imersão de todos nesse espírito, que é pragmático, mas é também orientado pelos conceitos de cidadania e empresa cidadã, é a segunda recompensa que os senhores e senhoras vão receber ao término deste II Congresso.

Quero, finalmente, homenagear as mulheres, tanto as que cuidam dos nossos lares como as que estão, também, na linha de frente do trabalho.

Em nome delas quero render um pleito ao conceito de família, o símbolo que mais próximo pode ficar de valores que vão além dos valores materiais: a lealdade, o companheirismo, o respeito mútuo e a afetividade da qual tantas vezes nos esquecemos na trincheira do trabalho. É difícil ser fiel ao que não amamos. Não é por outra razão que escolhemos uma família, a Família Lima, para nos brindar com música, logo após o coquetel que será servido.

Obrigado uma vez mais a todos por aceitar o desafio de debater, discutir e amar o Brasil com um olhar visionário do topo da montanha.